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MANUEL VILARINHO: «EM CADA CANTO DA ERICEIRA SENTI-ME EM CASA»

Com “A Memória da Paisagem” patente na Casa de Cultura da Ericeira até ao dia 6 de Outubro, lançámos algumas perguntas ao autor Manuel Vilarinho, que tem vasta obra e carreira (a sua primeira exposição individual data de 1985), bem como uma relação antiga com a Ericeira.
Esta entrevista com o protagonista da mostra organizada pelo Câmara Municipal de Mafra e com curadoria da Helder Alfaiate Galeria de Arte apresenta, assim, uma viagem ao passado do artista, mas com os pés bem assentes no tempo actual – com as obras que nesta altura se encontram na vila jagoza em destaque – e o horizonte no que está para vir.

Quando soube que era pintor?

Fui sabendo, embora só me tenha decidido quando já frequentava algumas cadeiras na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Antes estava indeciso entre Arquitectura e Pintura, que na altura eram cursos leccionadas na E.S.B.A.L.. Viagens fora de Portugal em adolescente, com os meus pais e a minha irmã, em que vi arte e comprei inúmeros livros de arte ajudaram à escolha.

Na sua já longa carreira, como caracteriza a evolução da sua obra? Os elementos paisagísticos, arquitectónicos e as referências literárias sempre estiveram presentes?

Nos primeiros anos estiveram sempre presentes elementos da Natureza-Morta e da Paisagem, aliados a inúmeras referências da História da Pintura. Posteriormente, a Geometria e elementos arquitectónicos instalaram-se na paisagem pintada por mim. As referências literárias por parte deste leitor, por vezes compulsivo, aparecem na minha pintura a partir dos primeiros anos do novo século.

Fale-nos um pouco sobre a exposição “A Memória da Paisagem”, que está patente na Casa de Cultura da Ericeira?

Esta exposição junta no mesmo espaço uma selecção de pinturas, na sua quase totalidade das duas últimas décadas, incluindo três pinturas inéditas da série intitulada “Marão (para Teixeira de Pascoaes)” e três desenhos inéditos da série intitulada “Viagem de Um Engenheiro Naval”. Estas duas últimas séries são já de 2019. As paisagens que se mostram na exposição são fruto da memória construída, de um olhar atento mas selectivo, sobre situações que me tocaram no Passado ou então “dedicatórias pintadas” a escritores e poetas cuja obra foi minha companheira de “viagem” ao longo de anos.

Esta exposição inclui duas pinturas intituladas “Elogio à Arquitectura” #1 e #2. Pode falar-nos sobre elas?

Essas pinturas começaram por obedecer a uma encomenda que me foi feita por um casal que viajava bastante pelo mundo, a quem pedi algumas fotos das suas viagens, para recolher dados que me levassem a ter ideias para o trabalho que me pediam. Como me interessou sempre a arquitectura, optei por lançar as pinturas em torno de duas obras arquitectónicas por eles visitadas e de que gosto particularmente: a Capela de Ronchamp em França, projecto de Le Corbusier (“Elogio da Arquitectura #1) e a Casa da Cascata na Pensilvânia, E.U.A., projecto de Frank Lloyd Wright (“Elogio da Arquitectura #2). Com a progressão das pinturas, assumidas por mim com muita liberdade, mas em que a direcção que tomaram não agradou aos coleccionadores que tinham feito a encomenda, estes optaram por adquirir outras pinturas minhas. Resultado: finalizei-as como queria, desligando-me totalmente da encomenda inicial. Embora ficassem um elogio da Viagem, ficaram sobretudo um elogio da Arquitectura.

E sobre as únicas pinturas datadas de 2019, também na exposição, intituladas, “Marão (para Teixeira de Pascoaes”?

Esta série de pinturas datadas deste ano de 2019 mostra uma mudança em termos de paleta, que se apresenta mais reduzida, mas onde, nomeadamente nos azuis, se exploram várias tonalidades por diversos planos. O título aparece, como quase todos os meus títulos, quando a obra já estava muito avançada. Outros títulos meus, talvez a maioria, só surgem depois da obra terminada, mas nunca a priori. Como nesta pintura explorava a representação de montes, montanhas, surgiu-me a Serra do Marão como uma possibilidade de título, e claro que dedicado a quem na sua obra literária e poética, de que gosto muito, mostra todo o amor a essa serra: Teixeira de Pascoaes.

“O desenho é sempre em Manuel Vilarinho de natureza onírica, uma mistura indecifrável de sonho e vigília.” Escreve Maria Filomena Molder, num texto sobre o seu desenho, editado pela Lisboa 94 Capital Europeia da Cultura no âmbito da exposição colectiva “Desenhos Contemporâneos”. Qual a importância do desenho na sua obra?

O Desenho acompanha-me desde que a Pintura também o faz. Não só na criação mas também no que diz respeito a exposições que realizei, onde desenhos apareciam a par de pinturas ou até mesmo em exposições individuais somente de desenhos. O desenho na minha prática artística surge de forma autónoma da pintura. Ele não é utilizado para fazer estudos para a pintura. Um ou outro desenho poderá fazer surgir ideias para pinturas, ou uma pintura fazer surgir ideias para desenhos posteriores, mas continuarão sempre como obras independentes, com o seu campo próprio de afirmação visual e que se bastam a si mesmas. Resumindo, não dou mais importância a qualquer das duas disciplinas artísticas, Desenho ou Pintura. Preciso das duas, amo as duas e sinto que posso comunicar sensações e ideias, com aspectos diferenciados numa e noutra.

Quais as suas grandes referências no mundo artístico?

As minhas grandes referências no mundo artístico passam, mais do que por nomes, por obras (muitas diga-se) de vários artistas, que vi ao longo de décadas. Desde a minha adolescência no Museu do Prado, em Madrid, onde as inesquecíveis “Pinturas Negras” de Goya não mais abandonaram a minha memória ou ainda em Toledo, assim como no Museu do Prado, ainda na adolescência, quando encontrei pelas primeiras vezes El Greco. Viagens em que, como já referi, acompanhava os meus pais e a minha irmã. A par de obras de pintores também as de vários escultores, realizadores de cinema e arquitectos foram para mim sinais de que a arte pode tornar a vida num enorme prazer de ser vivida, com muitos olhares e muitas formas de expressão sentidas, bem como num enorme mistério e numa enorme dádiva. Entre vários pintores do século XX, cujas inúmeras obras tive em grande consideração, não quero deixar de mencionar cinco. São eles Lovis Corinth (também com actividade artística no seculo XIX), Edvard Munch, Giorgio de Chirico, Oskar Kokoschka e Filippo de Pisis.

Que relação é que tem com a Ericeira?

A relação com a Ericeira poderei resumi-la da seguinte forma: em cada canto dela senti-me em casa. Foi nela que vi pela primeira vez o mar, foi nela que aprendi a nadar e a andar de triciclo, foi no então parque infantil do Parque de Santa Marta que andei pela primeira vez de baloiço e também foi no Parque de Santa Marta que comecei o meu primeiro namoro. Foi na Ericeira que ao longo de décadas encontrei amizades que me ficaram para a vida.

Do que sente mais falta da chamada “Ericeira antiga”?

Sinto falta de pessoas que lá conheci e com quem convivi e que não encontrarei mais. Dos risos e conversas com pessoas que lá me acompanharam em férias e fins-de-semana durante décadas, nomeadamente o meu pai, a minha mãe e a minha irmã. Sinto falta do Jardim dos Condes da Ericeira, perto do Mercado, onde hoje está um parque de estacionamento. Foi lá que aprendi a andar de triciclo e posteriormente de bicicleta. E o que dizer da falta que me fazem as piteiras do Parque de Santa Marta, onde os enamorados de todas as idades gravavam juras de amor.

Que projectos tem no horizonte?

Gostaria que o projecto de viver mais uns tempos se concretizasse. De continuar a rir com a minha namorada e com os outros que amo, como o meu filho. Farei tudo para que a arte não me abandone, nem se renda ao aborrecimento e à repetição de receitas sem chama e sem autenticidade. Que ela continue viva em mim e nos que vêem a minha obra. Estão projectadas exposições individuais minhas em museus e galerias em Aveiro (2019), em Lisboa e Sintra (2020).

 
Helder Alfaiate e Hugo Rocha Pereira
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